DES MOTS
textos de cariz pessoal
O futuro bateu à minha porta
Deve ter sido nos dias em que tinha 7 ou 8 que aprendi o significado da palavra futuro. Desde então foi-me chegando ao ouvido com progressiva teimosia. Comecei a pronunciá-la, mas nunca soou como uma palavra minha. É como dizermos morte sem nunca sabermos que tal coisa isso significa. Nunca quis saber.
Sempre fui um ser do passado: das flores azedas junto ao muro da vizinha - "olha a Primavera!" - e dos amigos que já não são meus, mas que eu carrego na minha lista dos cafés. A nostalgia é um sentimento que tem tanto de bom como de mau, como um arco-íris que aparece sempre que a chuva fria molha o chão que o sol aqueceu. Sem perceber porque carga de água, há coisa de um mês, o futuro bateu à minha porta.
De agora em diante, acabou-se a lamechice do pretérito imperfeito e os sonhos do condicional. Não há mais "queria um café" - Porquê? Já não quer?, riposta o empregado sorridente.
Nunca soube ser apenas eu. Nunca soube decidir - pensei para comigo. O futuro sempre foi uma coisa estranha. Há quem diga ser do carpe diem, mas armar o enxoval desde os três e há quem saiba desde sempre o-que-quer-ser-quando-for-grande e pelo caminho tropece no enorme degrau de tamanhas certezas. Eu preferi dizer sempre "não sei" mas aos 23, o futuro bateu à minha porta.
De agora em diante, é cada tiro cada melro. Olha que os estágios não-remunerados são só uma forma romântica de mendigar; que estágios profissionais são uma vez nesta vida e nem os gatos têm direito a mais; que o prefixo "recém" ainda dá muita pena e compaixão à palavra "licenciada". Aproveita, menina, que isso não são coisas do futuro. Olha que o importante é assentar. Que o pai ainda dá mesada, mas isso também não é para ser mimo do futuro. A vida é dura para quem é mole, já tu ouvias quando apanhavas pêras no meio da velhada.
Perco-me na leitura. O comboio pára e vejo a paisagem compor-se. Uns cavalos ao fundo comem erva seca e de resto são só árvores e algumas nuvens num céu quente. Inspiro lentamente. Sinto o coração a comprimir-se. Será da leitura? Este Murakami tem realmente algo de bizarro, as pessoas viram loucas a páginas tantas. Faltam umas cinco paragens e algumas páginas, deve dar para mais uns trinta minutos de leitura. Procuro a linha em que fiquei. Retomo a leitura. A meio do capítulo, o futuro volta a bater à minha porta.
De agora em diante, a questão é "daqui por 10 anos onde estás?". É a resposta a esta pergunta que tens de fazer valer todos os dias. Por falar nisso, o namorico? É coisa para durar? Isto de perder tempo na boa-vai-ela não ajuda nada quando tens o futuro todo ainda por montar. Para ser do futuro, é preciso que o moço aspire o mesmo que tu: o mesmo número de filhos, de meninos e de meninas. O mesmo dia, mês e ano de casamento e o mesmo destino de lua de mel. O mesmo passeio de domingo, o mesmo programa de TV, a mesma cor das barras da casa.
Daqui por 10 anos. Penso de olhos fechados. Vejo várias peças que flutuam languidamente num espaço vazio.
Abro os olhos,
Abro a agenda,
Escrevo,
Risco,
Faço listas,
Penso - que futuro o futuro me reserva? Tenho de descobrir por mim. Ler, Ler, Ler. Vou-me sentar. Pesquiso artigos. São 2h da manhã. Continuo a pesquisa, mas os meus olhos mais parecem dois catos sós no deserto. Amanhã é dia de trabalho. Penso. São 4h da manhã, vou dormir. Durmo.
Não me apetece acordar - dormi demasiadas horas. Tenho calor, mas não posso ir à praia - ir à praia não é importante para o futuro. Tomo um banho e visto-me. Olho-me ao espelho. Continuo com bom aspeto, mas o aspeto pouco ou nada revela sobre a alma. Deixa lá - é mais um dia. Só faltam uns poucos meses - só falta calçar e estou de saída. Vou ao hall de entrada, abro o armário e escolho os ténis. Já estava na altura de comprar uns, diga-se de passagem. Enfio-os nos pés com alguma brutidão e baixo-me para os atar. Num sobressalto, ponho-me direita. Sobe-me um frio pela espinha. Ali mesmo ao lado, tão perto e tão longe, ouço alguém bater à minha porta.
Agosto, 2017
The bus goes through the streets
Stops
Then returns its way
I keep myself looking through the window
And here I am
Being weirdo,
Daydreaming,
Creating stories.
I love film, photography, painting,
Love the ocean in wintertime
Love wind, poetry, words,
All kinds of flowers.
I love travelling & re-travelling
Meeting new people
Learn with them.
Learn with the world.
Learn.
Fevereiro, 2016
"Every child is an artist. The problem is how to remain an artist once we grow up"
(Pablo Picasso)
Lembro-me da minha mãe dizer irritada "Oh Rui, a miúda é pequena demais para ver essas coisas". Mas ele não se importava e eu ainda menos. Sentada no seu colo enquanto ele arrancava as peles dos dedos, as imagens colavam-se-me ao coração. Gritos, sangue, sexo, armas, doenças, lágrimas, guerra, amor. Vibrava de emoções. Não podiam adivinhar que era essa a razão dos pesadelos que me faziam acordar a meio da noite e ficar ali de pé em frente à cama deles.
*
A paixão pelas imagens em movimento existiu desde sempre. Fui por aí dizendo que queria fazer filmes porque gosto de ver como os sentidos se transformam e avultam; concretizar ideias, perceber onde tenho de ajudar, organizar o caos, fazer acontecer.
É verdade, não é uma profissão daquelas normais. Muito menos é fácil de explicar - a minha avó ainda acha que vou apresentar o Você na TV ao lado do Goucha -. Mas é uma trabalho tão necessário quanto outro. Não detemos criminosos, mas ensinamos valores; não ensinamos crianças a ler, mas mostramos a substância da qual é feito o mundo; não operamos corações, mas enchemo-los de emoções. E o que é feito de nós, comum mortal, sem emoções?
*
Às vezes, quando estou a ver um filme, consigo-me lembrar de um flash, de uma imagem, algo familiar. Tenho a certeza de que já vi aquilo antes, certo dia, certa noite, sentada ao colo do meu pai.
E isso relembra-me o motivo pelo qual não desisti de tentar.
Abril, 2017
oiço por aí
gente dizer que tenho jeito para muitas coisas
de ego mimado
enterneço-me nas palavras
mas é ausente o talento
o talento real
aquele que não é jeito
potencial genuíno
puro
aquele que nasce entranhado nas pessoas
queria um talento
para quando fosse grande
talvez
para dizer aos meus filhos,
meus netos,
meus bisnetos também
que aquele foi o meu talento
mas entretanto
- por enquanto -
enquanto ele continua escondido
vou vivendo com os jeitos que tenho
Fevereiro, 2013